Acordei feia
Mas, ainda assim, preciso encarar o sistema capitalista
Mesmo antes de levantar da cama, eu já sabia. Hoje acordei feia.
Feia.
Feia.
Feia.
E não, não adianta tentar levantar a minha bola. Não é problema de autoestima ou de querer alcançar padrões de beleza inalcançáveis. É apenas a vida sendo vida, sabe?
Um dia a gente dorme bonita e no outro acorda feia. Tão feia que nem a própria mãe conseguiria dizer o contrário.
Acordei feia, mas, ainda assim, preciso encarar o sistema capitalista. Levanto da cama, vou ao banheiro, raspo a língua, escovo os dentes e até tomo um banho com lavagem de cabelo e tudo. Desprovida de beleza sim, cheirando a produtos veganos, artesanais e eco friendly também.
Com o ego de militante de sofá massageado, visto uma calça jeans meio encardida, a camiseta da Associação dos Sem Carisma e um tênis que aperta o meu dedão do pé, pois fiquei com preguiça de trocá-lo por um número maior.
Antes de sair de casa, passo na cozinha e passo um café zero ansiolítico para a viagem e continuo usando a miopia para não enxergar o meu rosto nem na panela cem por cento polida e, obviamente, ainda virgem de fogão. Coloco o óculos de grau apenas para dirigir até o trabalho.
Feia, mas responsável.
Trabalho é trabalho e não interfere em nada eu estar feia. Memorandos, planilhas, reviradas de olhos atrás do computador. Digitações rápidas e rugas espremidas entre as sobrancelhas para parecer deveras ocupada e, como ninguém é de ferro, algumas pausas.
Tomar cafezinho. Enviar memes para amigos de humor cancelável. Meter para dentro uma marmita meio seca, escaldante nas bordas e congelada no meio. Fazer fofoca com a Márcia do RH. Comer o lanche da tarde, que era para ser um iogurte com whey, mas foi um bolo de pote. Implicar com um colega sabe-tudo. E fim.
Nove horas depois, bato o ponto e sigo com a minha feiura pelo congestionamento das dezoito horas.
Se durante o dia me senti mau humorada pela feiura, quando as estrelas começam a marcar o céu azul marinho com seus pontinhos de luz, me encaminho para a casa de espetáculos com um sorriso quase medonho no rosto. Continuo feia, mas um pouco mais animada.
Dou boa noite ao porteiro do teatro, que não vai com a minha cara, nem horrorosa, nem bonita. Encontro os colegas de palco. Janto outra marmita sonsa para economizar dinheiro. Caço picuinhas diferentes com outro pseudo ator, tão artista quanto chato. Troco as roupas civis por um figurino deslumbrante, porém piniquento. E, quarenta e três minutos antes de pisar no palco, sento a bunda no lugar onde não é mais possível evitar o meu reflexo.
Feia e decidida, levanto a cabeça devagarinho e olho para o espelho do camarim sem medo do que estar por vir.
A bonita está entrando em cena.
Comecei a fazer pilates e, na primeira aula, a professora me disse "nossa, tu é muito flexível". TOMA, crença limitante!
Na estreia do Brasil na Copa, deu vontade de comer brigadeiro e lembrei de um leite condensado esquecido no armário há mil anos. Quando fui conferir a data de validade, ele venceria um dia após o jogo.
Instalaram um semáforo para pedestres em uma esquina onde nós, os flanantes, precisávamos adivinhar se faltavam dois ou cinquenta segundos para atravessar a rua com segurança.
Segunda-feira, jogo do Brasil às 14:00 horas, expediente cortado pela metade, amigos & churrasco & paçoquinha, transmissão sem delay, vitória nos últimos minutos do jogo e, para arrematar um começo de semana perfeito, nossos vizinhos paraguaios mandaram a Alemanha para casa nos pênaltis.
Fui em uma festa da Geração Z tramando sugar a juventude dos queridos, mas quem acabou com a minha energia vital foram eles.
Quando a Gabi Albuquerque publicou o texto sobre poesia e forrobodó, tive esperança de reencontrar uma música que vive fazendo cosquinha em mim, mas não deixa coçar. A lista de músicas da Gabi é uma delícia de dançar coladinho, mas ainda não foi dessa vez que vou dar nome e sobrenome para a batidinha, sem letra e sem melodia, que vive forrozeando dentro da minha cabeça.
Ninguém passa ileso por uma Copa do Mundo e, quando me dei por conta, uma parte da minha alegria começou a depender de um bando de macho patrocinado por Bet.
A redoma de vidro (Sylvia Plath) - ela tinha tudo para ser feliz, mas ser feliz não é uma escolha.
Poema do esquecimento (Laura Liuzzi) - antes, durante ou depois, todo mundo deixa de existir.
Uma mulher singular (Vivian Gornick) - voltinhas por Nova York só para desanuviar a cabeça.
Fup (Jim Dodge) - eu quero uma pata de estimação.
Bonita, apesar de feia. Feia, mesmo sendo bonita.
O áspero das faltas é meu primeiro livro e foi indicado ao Prêmio Jabuti 2025. Além de chique e gostosinho de ler, ele ficará belíssimo na sua estante. Você pode comprá-lo aqui ou falando diretamente comigo pelo Substack ou Instagram.
Se você também se interessa por poesia em tempo (quase) real, clique aqui.








¡Que feo, uma menina tão bonita!
Aiii Brasil, acabou com nossos rolês de ver jogo. Feio!